25 de mai. de 2009

3º Capítulo

O frio e a chuva o agradavam. De certa forma já previa o seu dia. Não aconteceria nada de interessante ou surpreendente capaz de sua rotina mudar. O relógio mostrava a cada segundo a sua condição ridícula e limitada de mudar a sua própria vida. Ele sabia, mas jamais admitia. Ele era um covarde.
Todas as manhãs ele pensa que ao abrir os olhos descobrirá que tudo não passa de um terrível pesadelo da noite anterior. Ao abrir os olhos, descobre que o pesadelo acaba de começar. Deixou ir por água abaixo todo os sonhos, suas atitudes, sua coragem, seus ideais. Era uma manhã qualquer de julho. Uma manhã fria como um bom inverno deve ser. A chuva caia fina e mansa. Aquela manha cinza e apagada (para ele este prazer não era nada estranho) era a coisa mais linda do mundo. Talvez isso fosse um bom motivo para se agradar. Mas não era o suficiente.
Fobia, estress e medo era o fim que o levou a sua falta de atitude. Um medíocre e lamentável emprego de operador de telemarketing.
- Como ?
Até um marciano saberia o que isso significava. Um cara estressado, fudido e mau pago. Um sujeito que tem apenas 6 horas diárias de trabalho porque se aumentar para 7 ele tem um enfarte. Os call centers teriam que pagar indenizações trabalhista diariamente.
Mas a vaca da moça do balcão de crediário da loja de eletrodomésticos o fazia repetir a sua função ao preencher seu cadastro, como se aquilo fosse uma forma sutil de ofendê-lo. E era.
A sedução de horário reduzido tinha lá sua vantagens mas não era tão simples assim. Ele ainda não se conformava. Afinal porque os clientes tratavam tão mal os operadores? Eles não podiam supor a conseqüência desta atitude para suas vidas.
Diariamente sentia uma vontade imensa de mandar todo mundo tomar no cú no caminho entre a cama e o chuveiro mas a água fria o fazia refletir melhor. Haviam contas a pagar.
Os mesmos passos até o ponto. Os mesmos de ontem, de anteontem e de 30 dias atrás.
Lembrou de suas últimas férias. Que viagem foi aquela. a muito não senti-se tão leve.
Enfim conseguiu realizar um sonho, já a muito tempo martelando sua cabeça. Sentiu-se realizado. Agora, já a algumas semanas, tentava implementar definitivamente aquelas atividades que fez durante as férias na sua rotina. Isso era a única coisa que ultimamente fazia valer o ar que respirava. No ônibus, algumas caras conhecidas, outras nunca antes vistas. Os mesmo de sempre e sempre os mesmos.

Uma menina falante distraindo o motorista, um cara de óculos lendo um jornal que quase sempre ele tentava ler junto por cima do ombro do homem. Mas talvez por causa dos óculos ele conseguisse ler mais rápido.
- Talvez eu deva procurar também um oculista...
Ele tinha uma verdadeira tara por uma garota ruiva com cara, boca e bunda linda e deliciosa. Mas ela nunca o percebia. Talvez ela até já ouvira falar dele, talvez ela leu ou ouviu falar de seus feitos em algum noticiário mas não sabia quem ele era. Talvez a melhor e a pior escolha de um herói é optar pelo anonimato. Era melhor que fosse assim.
- nova horas colaborador Pedro. (um pseudônimo da empresa. Ele enfim, já tinha perdido completamente a sua identidade).
- Temos uma fila de espera de atendimentos de 30 minutos. Nós contamos com você! Tenha um bom dia.
A mensagem de motivação inventada pelo gerente do departamento era bizarra. Primeiro denunciava seu horário e o atraso, depois identificava o caminho de mão única para o inferno e por ultimo o ameaçava de demissão caso a porra da fila não diminuísse nos próximos poucos minutos.
Talvez como um relógio insistente em fazer sempre tudo igual, fosse preciso se conformar.
Com as horas, as caras, o salário e os cafés. Tomados religiosamente 6 vezes por dia.
No caminho de volta também tudo igual como na tarde anterior. Antes de entrar no metro comprou alguns jornais.
Tinha curiosidade de ler as noticias sobre a noite anterior por diferentes pontos de vista. As ultimas, relatadas nos dias de suas ultimas férias ainda eram merecedoras de manchetes.
Ele começara a fazer sucesso, e se orgulhava disso Um sorriso discreto talvez notado apenas pela senhora sentada a sua frente no vagão, revelava aos seus olhos, sem que ninguém pudesse supor o verdadeiro motivo de sua alegria.
""homem de 50 anos é morto em casa após tortura. A policia já prendeu um suspeito. ""
Ele lamentava pelo acusado. Mas eram perdas necessárias que justificava a continuidade de suas atividades sem levantar suspeitas. Retirou uma pequena agenda de bolso, e leu novamente as anotações da letra M.
" Melquiades, cliente do cartão Master. Motivo da ação: ofensa a minha capacidade intelectual. Justificativa: voz enfadonha. Intervenção: disfarce de técnico de técnico da tv por assinatura. Ação: ataque por inalação de éter. Amordaçar e amarrar. Reativar os sentidos. Retirada das unhas com alicate com aplicação posterior de álcool no local. Asfixia progressiva no final. "
Fechou seu caderno de anotações satisfeito, sua última ação foi um sucesso. Já não chovia mais. O frio aumentara e o céu cinza e deixava aquela final de tarde ainda mais lindo.

2 comentários:

Unknown disse...

Sinistro..
Gostei quando fala da vaca da moça do balcão de crediário da loja de eletrodomésticos...deu para visualizar bem todas as cenas.

porque 3º capítulo?

Parabéns pela história e abração !

Chu

Rodrigo Mers disse...

Cara,

Muito bom Tchelo,
se eu mostrar para o meu irmão ele me mata, vou mostrar....kkk

...."ele trabalha com telemarketing"

Parabéns

abração